terça-feira, 24 de novembro de 2009

O andar do bêbado

How many roads must a man walk down
Before you call him a man?
[...]
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind

O ano de 2009 está quase chegando ao fim e não devo jogar nenhum torneio até o fim do ano, o que quer dizer que o blog ficará sem histórias por um tempo.

Ao longo do ano tive altos e baixos. No começo do ano joguei mal e vivi mal; depois dos 20 parece que mudei de atitude e os caminhos no xadrez mudaram também. Muita coisa aconteceu, coisas que eu queria e coisas que eu não queria; coisas que me esforcei pra ter e coisas que me esforcei pra evitar, coisas que aconteceram sem que eu sequer imaginasse, coisas que eu não pude impedir...

Aprendi a me preocupar menos, a me ocupar mais com que é importante e finalmente a dar ao xadrez o valor apropriado ao invés de usá-lo num esforço para suprir a ânsia da vaidade. Não apenas amadureci para me tornar um enxadrista mais eficiente, mas também para me tornar um enxadrista mais contente com a própria vida e atitude, no xadrez e fora dele. Só faltou recobrar a introspecção e aprender a concentrar-me ao invés de preocupar-me.

Hoje, por causas que em sua maior parte estão fora do meu controle, meu destino é tão certo quanto o andar do bêbado. Não que seja muito diferente em circunstâncias normais, na verdade descobri que o aleatório tem mais influência do que as atitudes sobre o futuro - e se é assim, tentar tomar o lugar do aleatório pode ser muito prejudicial. Aprendi que o acaso é muitas vezes mais inteligente do que eu.

Eye of the tiger


Entre mortos e feridos, em meio à poeira da destruição, cá estou eu enchendo o blog de linhas mais uma vez.

No período compreendido entre os dias 13 e 20 de novembro estive em Chapecó (dois anos depois da minha primeira competição por equipes, lá mesmo) para compor a equipe de Florianópolis nos JASC 2009. Saímos daqui na quinta-feira à noite, 12 de novembro (eu, Uczai, Pomar, Eliseu, Karol, Bea, Dani, Thauane e uma vara da turma do salto com vara). Firmemente resistimos às 10h de viagem de ônibus e aos siberianos -10ºC impostos pelo severo motorista. Desembarcamos no alojamento instalado no colégio Zélia Scharff - um nome que em nada inspira os episódios sinsitros (!) que nos aguardavam...
Embora tenhamos ficado à toa nessa sexta-feira 13, Pomar quase se machuca feio ao iniciar uma pacífica manifestação dentro do quarto - felizmente, nada que uma terapia com gelo não resolvesse. Mas até aí tudo normal... ninguém suspeitaria do que estava por vir.

À noite deste primeiro dia, acordei por volta das 04:00 da manhã por conta de um pesadelo terrível, sem precedentes. Não consegui dormir por uns vinte minutos, sem conseguir tirar as imagens da cabeça e sob sapinhos de papel que ficavam voando de um lado pro outro no teto do quarto, movidos pelo ventilador que mais parecia uma turbina de Boeing - a julgar pelo barulho produzido.

No dia seguinte nos deslocamos para o salão de jogos para enfrentar a equipe de Lacerdópolis. De acordo com a escalação jogaríamos com a seguinte formação: Pomar, Uczai, Brandão e Eliseu. Nossa estratégia prévia era vencer pela máxima margem as equipes menores e tirar qualquer coisa das grandes. Por isso, a julgar pela força relativa das equipes, deveríamos vencer por 4 x 0. Não tive muitas dificuldades no meu tabuleiro, embora meu adversário tenha empregado um gambito que nunca estudei e eu tenha sido forçado a pensar já no lance 3. Felizmente achei um plano bom envolvendo uma rápida reação central e desenvolvimento das peças leves e, como meu adversário não jogou os melhores, já no lance 10 não se pode falar em compensação. Depois de um sacrifício de qualidade sem muita justificativa troquei as damas e depois de eliminar o poderoso cavalo em d5 a posição branca desmorona rapidamente.



Aí deu-se o primeiro tropeço: O Eliseu, com uma qualidade a mais, tentou forçar a barra em uma posição empatada, errou e acabou perdendo. Tudo bem, compreensível, todos assimilamos o resultado facilmente - menos o Eliseu. Depois dessa partida o emocional dele falhou e ele acabou optando por voltar pra casa no dia seguinte. Antes disso, porém, durante a noite, algo que nos tirou o sono - literalmente! - ocorreu.

Um dos nossos companheiros de quarto (que não convém expor) tirou todos da cama, por volta das 04:00h, com um singelo sonilóquio (fala durante o sono):

- SOCOOOORRO!!!

Sim, amigos. No tom de voz mais alto que vocês possam imaginar, só que mais alto. Aí seguiu-se um...

- SOCORRO!!

E então todos, de sobressalto, corremos para saber o que estava acontecendo. Nosso companheiro, por motivos que ele próprio desconhece, gritou duas vezes por socorro enquanto dormia. Ainda nessa noite, por coincidência (?), outros pequenos incidentes ocorreram, incluindo a falta de energia elétrica. Mas nada que nos tirasse a paz - ou quase.

No dia seguinte viemos a descobrir as lendas que envolviam a escola - nada agradáveis, por sinal -, mas superamos com relativa facilidade. Nesse mesmo dia enfrentaríamos a equipe de Concórdia (com Molina, Fier, El Debs e Alessandro "Paulista"). Estávamos escalados: Pomar, Uczai, Brandão e Jaílson - que chegou de viagem no dia anterior. Por conta de uma falha técnica, nosso match veio abaixo quando tivemos que passar para o tabuleiro seguinte e perder toda a preparação contra os nossos respectivos adversários. Enfrentei o Alessandro no 4º tabuleiro com uma francesa; ele mandou um ataque índio rei com 2.De2 e até consegui luta depois de 13...g5, apesar da posição estranha. Foi quando a relação lances pro controle/tempo disponível apertou que eu comecei a me precipitar e mandar minha posição pro buraco. O Alessandro jogou firme e logo arrematou.



Tomamos um belo 0 x 4 e parecia que esse seria um JASC que não, não deu. Mais uma vez nos mantivemos unidos e superamos o ocorrido. Difícil foi superar a madrugada desse mesmo dia, pois perto das 04:00h, adivinhem...?
- SOCORRO!
Dessa vez mais comedido, suficiente apenas para acordar o pessoal do quarto, não do alojamento inteiro. Mais uma vez nosso espírito de equipe nos manteve serenos e seguimos bravamente para nosso próximo confronto. O César, que deveria chegar nesse dia para substituir o Pomar, perdeu o ônibus só conseguiu chegar para a 4ª rodada. Aí fomos nós enfrentar, respeitosamente, a equipe de Caçador na mesa 8. Quem não respeitou muito o match foi meu adversário, que jogou ao toque até o lance 21!! É claro que quando se joga rápido demais em posições que requerem cuidado, planejamento ou defesa tenaz a coisa não vai muito bem...


Apesar do 4 x 0 eu saí meio abalado da partida, com pouca confiança em mim e no meu jogo, por isso pedi um dia de descanso. O confronto seguinte foi contra Itajaí e o Pomar, que já não estava com muita pilha, assumiu meu posto e jogou contra o Dauer no segundo tabuleiro. O placar ficou 2 x 2 depois que o Uczai fez o serviço e o César (enfim em Chapecó) ganhou magicamente do Kaiser em um final de torres inganhável - do lado inferior!!. Eu, que tomei o tempo que precisava pra colocar os pensamentos em ordem e recobrar a auto-estima, voltei à ativa, enquanto o Uczai teve que voltar pra Floripa por causa de provas na faculdade. Sem Eliseu e sem Uczai, teríamos que jogar as 3 rodadas seguintes sem reservas.
Sem mais surpresas noturnas no alojamento, seguimos para enfrentar Tubarão, composta por Godóis, Emendorfer, Djalma Aguiar e Braitt. O César acabou tomando um ataque forte e o Pomar, depois de socorrer a Bea que passou mal durante a partida, perdeu um final de peões para o Daniel. Aí sobramos eu, já em um final superior, e o Jaílson (vulgo "Jajá Maravilha" ou "Jajá Exclama Cinco"), que acertou em cheio a preparação proposta pelo Uczai contra a Pirc do Braitt. Nós dois vencemos e seguramos o 2 x 2. Sobre a minha partida com o Djalma, não saí muito bem da abertura e deixei margem para que o branco obtivesse uma grande vantagem, mas o Djalma não jogou os precisos e, pior, acabou tomando um golpe que me deixou com 2 cavalos por uma torre. Aí a conversão teve que ser paciente, mas aos poucos fui montando uma posição dominante. Como eu perdi a cópia da planilha (¬¬), só poderei mostrar até a parte que recordo:



Neste mesmo dia as meninas voltaram pra Florianópolis. A equipe não foi muito bem no geral, mas as meninas mostraram que sabem brigar também. A Thauane conseguiu uma medalha de ouro por rendimento individual.
Então subimos à mesa 2, para enfrentar a equipe de Joinville. Antes do torneio imaginávamos que as equipes principais teriam alguns pontos fracos, possíveis buracos em que se poderia fazer um ponto - menos Joinville. Essa era um paredão composto por Rodrigo Disconzi, Renan Levy, Haroldo Cunha e Sílvio Cunha (rating médio aproximado: 2300). Foi nessa rodada que o mote da nossa equipe se fez valer e lutamos muito, no melhor estilo Eye of the Tiger (^^), sob pressão em todos os tabuleiros.


Antes de contar sobre os outros tabuleiros, um resumo das 3:30h de batalha com o Haroldo.
- Ele jogou uma holandesa inusual para os meus parâmetros e me tirou do livro, depois de 5...a5 inventei um 6.Bc3 que é até bem-intencionado (baseado no controle da casa e5), mas não é lá muito bom. O simples 6.Cc3 era suficiente.
- A partida seguiu como se deveria esperar até 10...De7. Aí eu percebi que a minha posição não ajudava muito na hora de escolher um plano... Eu não me sentia inferior, mas sem direção. Apesar de conseguir analisar a posição e identificar os pontos importantes (casa e5, casas pretas em geral, bispo ruim em c8, possibilidade de estourar com f2-f3 e e3-e4) não conseguia bolar um plano de ação que juntasse tudo isso e melhorasse a posição significativamente.
- Aí, já bem atrás no relógio, decidi que precisava fazer algo e mandei a3, forçando a troca dos bispos de casas pretas já que não consigo enviar os cavalos à casa e5 por meio de Cf3-e1-d3 e Cd2-f3 - o peão c4 pendura no final das linhas. Ainda não tinha certeza sobre a fraqueza real dos peões quebrados, mas não via nada de muito ruim pra mim. Depois de 13...Bd7 finalmente a manobra Cf3-e1-d3 foi possível, já que c4 não cai mais (melhor seria 13...Ba6, como eu esperava).
- Aí seguiu a rotina e depois de 19...Rh8 fica claro que eu ainda não tenho um plano direto ao jogar 20.Te1 (com idéia de eventualmente mandar f2-f3). Só que depois de 20...Bg6 percebi que f2-f3 é uma furada, e eu preciso fazer alguma coisa pra ter vida na posição. O problema é que eu continuava naquelas de não conseguir bolar um plano que abrangesse tudo, que fosse lógico e coerente com a posição.


Com uns 30 minutos para chegar ao lance 40, decidi que não dava mais para esperar e mandei uma sequência que parecia promissora, torcendo pra não ficar com uma posição ruim a longo prazo. Minha intuição acertou e o Fritz dá o aval: a pressão sobre d5 já poderia ter sido iniciada antes. Cabe uma explicação sobre 24...Tc8: o Haroldo chegou a levar a torre até b8 para defender o peão e só então percebeu que o cavalo entra em d7 faturando uma qualidade. Tendo que mover com a torre, largou ela em c8 mesmo - melhor seria tomar em c5, mas após 25.Dc5 o flanco dama do preto está caindo aos pedaços e eu não vejo nada muito rápido contra meu rei. Entrei nos 5 minutos restantes ainda no 29.Tb1, o que quer dizer que me restariam 30 segundos por lance até o lance 40...
Faltando 1 minuto para o fim do mundo (e o Haroldo pressionando minha seta), eliminei o bispo de g6 que perfurava minhas torres e sacrifiquei a dama logo em seguida, sem poder gastar preciosos segundos buscando refutações. Felizmente não havia nenhuma e achei o arremate com a seta ainda em pé - sem saber que o apuro havia passado dois lances antes! Pra variar, o lance o controle 40.a5 está errado e há algumas contra-chances: depois de 41.Bd5 Tb8! salva o dia, mantendo possibilidades de xeque perpétuo, mas 41...Tf7 leva uma bonita sequência de mate em 3 começando por 42.Tg8 (que na minha cabeça era 40.Tg8... e não 42). Correto é 40.Tf1!!


No tabuleiro 2, Pomar ficou apertado mas segurou a barra e depois de alguns lances imprecisos do Renan conseguiu levar pra um final igualado, arrancando um empate. O César encaixou a preparação feita para o Kaiser na 5ª rodada e fez o Disconzi pensar por uns 50 minutos para resolver os problemas da abertura. De fato, o Disconzi ficou melhor e acertou um golpe mas o César se manteve na partida. Se manteve tão vivo que quando estava prestes a ser nocauteado pelo Disconzi, este, com a seta ruim, permitiu a troca de damas depois de sacrificar uma peça e uma qualidade - mais uma demonstração da estilo Ninjitsu do Umetsubo...
Tudo isso ocorreu antes do primeiro controle. Aí faltava o Jaílson, que tentava segurar o Sílvio com todos os recursos possíveis uma vez que caiu num truque no lance 6 e perdeu um peão. Resistiu, resistiu, resistiu, lutou por 6 horas e, buscando suas chances, levou pra um final de R+B x R+T e peão torre - ele com 5 minutos e o Sílvio com 2. Depois dessa maratona o Sílvio acabou sendo vencido pelo cansaço e pendurou a torre, empatando, para o delírio da torcida de Florianópolis que aguardava, faminta, o desenlace.

Com esse 3x1 tiramos Joinville da disputa pelo ouro e no da seguinte Rio do Sul, já praticamente campeã, propôs a paz e um dia feliz. Minhas projeções estavam certas e não houve nenhuma goleada nas mesas próximas, o que nos deixou em um confortável 4º lugar. Eu terminei com 4,5/6, satisfeito com a pontuação, com a performance, com o aprendizado e com a idéia de sair daquele colégio tenebroso.

JASC 2009

O JASC foi bom.

[...]

Obs.: Post inspirado nas críticas sobre a não-lá-muito-breve composição dos textos do blog.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

KatsuDo

No último post encerrei com um fluxo de pensamentos um tanto desorganizados. Refletindo melhor sobre isso, parece que consegui uma forma mais lógica de expôr. O ponto da minha filosofia enxadrística é de que xadrez é uma luta; duas vontades lutando para subjugar uma a outra, tentando alcançar seu objetivo ao custo da derrota contrária. O resultado da luta é externo e imprevisível, depende do adversário também, mas a luta ocorre dentro de cada um.

Por muito tempo, oscilando entre várias formas de encarar as coisas, entendi (finalmente!) que não tem nada a ver com ganhar ou perder, tem a ver com a luta. O pensamento oriental ensina isso há milhares de anos, mas só mesmo experimentando a realidade é possível aprender. Nem sequer consigo expressar exatamente esse entendimento.

Nossa sociedade, cultura e natureza nos impulsiona a competir, em tudo. A cultura ocidental, especialmente, associa resultado a felicidade, um conceito auto-destrutivo, pois põe o bem-estar sob a dependência de fatores muitas vezes aleatórios.


Experimentei bons momentos buscando a satisfação exterior; experimentei sofrimento buscando a satisfação exterior; experimentei os momentos de maior satisfação buscando o melhor de mim mesmo. O despertar deu-se na cíclica questão, levantada poucos dias atrás: por quê lutar? Ai percebi que, assim como um judoca, minha satisfação reside na trilha do chamado "caminho da perfeição", a busca pelo melhor de si e a entrega à tarefa - a vitória é uma consequência natural e inevitável, assim como a derrota.

Não é que eu tenha virado monge, na verdade continuo admitindo a possibilidade de oscilar entre outras formas de entender a realidade. É muito difícil adaptar todas as áreas da minha vida a uma doutrina, mas agora conheço um caminho modesto e introspectivo, que pode me ajudar de uma forma geral. A existência é caótica e não conheço seres não-místicos que tenham encontrado um caminho e o seguido por ele eternamente, por isso me reservo o direito de ser humanamente instável...

Quando comecei a jogar xadrez o fazia por diversão; então, passei a competir e jogar xadrez em busca do resultado e da superação; hoje o xadrez é uma atividade de desafio pessoal, onde o sucesso consiste em ser forte - em técnica, em postura e em ação -, independente de ganhar ou perder.
Não sei o que virá amanhã, afinal, nunca imaginei que chegaria até aqui. Até lá, vamos viver, temos muito ainda por fazer...

Obs: KatsuDo = caminho da luta

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Brothers in arms

"Through these fields of destruction
Baptisms of fire
I've watched all your suffering
As the battles raged higher
And though they did hurt me so bad
In the fear and alarm
You did not desert me
My brothers in arms"

De volta a Floripa, mais uma vez. Sexta-feira viajei, junto com JP Uczai, Umetsubo e Marcus Vinícius para Curitiba, rumo ao Festival Brasileiro Interclubes. Integramos a equipe e experimentamos as lutas lado a lado. O Eliseu acabou não podendo ir conosco em virtude de seus compromissos profissionais e formamos a equipe apenas com os outros dois componentes: Jaílson e Pomar (o Marcus foi para compor a equipe juvenil, junto com Rogério Hannemann, Leonardo Sampaio e Nicolas Reis).

O torneio teve 5 rodadas apenas. Emparceiramos na primeira rodada contra a equipe do clube de Ponta Grossa e tivemos uma vitória relativamente fácil, 4 x 0 (eu, particularmente, venci em menos de vinte lances depois de estourar um bispo no roque do meu adversário, Yutaka - 'As-peça' Okuma). No sábado enfrentamos a equipe favorita, do CXC, e eu fui emparceirado com o Justo Chemim (2234). Joguei muito mal, tecnicamente, me colocando numa posição ruim, escolhendo um plano ruim, jogando lances ruins em virtude desse plano e tentando resistir em uma posição estrategicamente perdida. O Justo não se incomodou com problemas pequenos e tratou de estrangular a posição, arrematando na hora certa.



Umetsubo perdeu para o MF Adwilhans, Uczai perdeu para Aron Corrêa e Pomar empatou um final 2T x 2T contra o Lenadro Salles. Aí descemos pra mesa 2 para enfrentar outra equipe do CXC, patrocinada por uma construtora de lá. O MI Sandro Mareco não jogou esta rodada, o que facilitou nossa vitória por 3 a 1. Umetsubo e Pomar alcançaram posições muito superiores no meio-jogo mas acabaram lutando pra não perder o final, enquanto o Uczai tirou leite de pedra num final de 2T x 2T contra nosso antigo aluno Gilberto Steinn. A minha partida foi relativamente tranquila, resolvi jogar algo diferente do que tenho jogado nos últimos tempos e caímos numa inglesa hedgehog. Eu já havia notado que após um tempo jogando as mesmas posições da abertura o raciocínio fica um tanto automatizado, ao passo que jogando posições um pouco menos habituais parece que, estranhamente, as idéias fluem melhor, frescas. Meu adversário acabou cometendo um erro típico saindo da abertura: deixou cair um peão achando que recuperaria facilmente nos lances seguintes, sem calcular as complicações de forma concreta. Depois de uns 15 minutos tomei o peão e acabei em posição ganhadora, meu peão de 'a' disparando em quase todas as variantes. Ele tentou um recurso defensivo engenhoso, sem perceber que ao concretizar seu plano eu disporia de uma combinação que força o ganho.



Aí empareceiramos com a forte e jovem equipe de Araucária, composta por Paulo Palozi, Euclides Ferreira, William Cruz, Cristiane Habitzreiter, Daiane Hornes e Marlon Palozi. Nessa rodada a Daiane jogou no tabuleiro 4 contra o recém chegado reforço Jaílson de Melo, e acabou por vencê-lo. Umetsubo jogou uma posição muito estranha com o Palozi e sugou um empate. Uczai esteve ganho em um posição ultra complexa, deixou passar alguns arremates e acabou perdido. Eu joguei contra o William Cruz (2135), que já era fortíssimo quando eu comecei a jogar xadrez. Ele mandou um gambito dama das trocas com o plano do Botvinnik Cg1-e2, f2-f3, Dd1-c2-f2 e e3-e4. Não conhecia bem as variantes, mas consegui uma posição legal saindo da abertura, com equilíbrio dinâmico - ele tinha mais pressão, peças bem dispostas, mas uma vez estabilzada a posição eu poderia lutar contra os peões colgados no centro. O problema é que eu não vi a porrada que levaria depois de Ta8-d8 e ele não deixou passar a chance: d4-d5! arrebentando minha posição e ganhando elegantemente a partida. Ainda achei a variante que perderia menos (uma qualidade) mas o final é desesperador.



Me senti muito chateado depois da partida, especialmente porque tomei a missão de resistir forte e acabei perdendo num estágio tão inicial. Na verdade, todos acabaram se sentindo assim. Nunca é legal tomar 3.5.

À noite fizemos um divertido passeio subaquático, voltando para o hotel no começo da madrugada. Na manhã seguinte enfrentamos outra equipe do CXC (Aficcionados). Depois de uma série de altos e baixos (níveis), venci minha partida. Certamente meu caráter lutador fez a diferença, tanto mais porque estava bastante mal (fisicamente) e queria que a partida terminasse o mais rápido possível. Acabei ficando mal na posição, sofrendo ataque, pressão, perdi uma qualidade, mas me mantive de pé, e venci. Pode ser dito que "Ah, o sujeito fez besteira, a vitória aconteceu por conta disso", mas não é bem assim... Eu precisei me manter na partida para que ele fizesse besteira, e aproveitei a chance quando ela se apresentou. Errei feio no posicional e me botei sob circunstâncias desfavoráveis, mas ao longo dos acontecimentos busquei recursos para me defender, dificultei as decisões dele, fui escorregadio. O tempo dele foi apertando e a tensão fez com que ele cometesse eventuais erros, por isso venci, mas a questão toda é que pra ter minha chance de vencer precisei não perder, e é aí que está o mérito da coisa.

Acabamos ficando em 5º lugar no geral e eu, assim como o Uczai e o Pomar, ganhei uma medalha por rendimento individual (3º lugar no 3º tabuleiro). A equipe juvenil do CXF foi campeã da categoria.

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De todas as coisas que conversei com o Matsuura em Vitória, uma coisa me marcou muito. Num ponto da conversa ele disse que o enxadrista deve se conhecer o suficiente para saber porque ele joga xadrez, o que ele quer com o xadrez. Assim esse enxadrista consegue se motivar, e a motivação é sua grande força. Enquanto ele falava sobre isso, percebi o quanto meu caminho no xadrez se desvirtuou nos últimos tempos, me fazendo voltar a velhos defeitos.

Há um tempo atrás o Malcolm me enviou um recado que falava sobre a minha postura no Citadino, sobre eu ter atuado como um "monge", isento de vaidade ou preocupação com o resultado, apenas concentrado em jogar bem. Não dá pra dizer que essa foi a causa da conquista, até porque não existe segredo pro sucesso nem é a conquista o centro dessa reflexão, o certo é que pude me superar e essa postura teve seu papel nisso.

Esse torneio (Bras. Interclubes) foi importante para que eu pudesse refletir sobre essas coisas, assimilar a experiência obtida na semifinal do brasileiro. Dentre outras coisas, eu percebi que após o Zonal o resultado tomou um papel muito importante pra mim, o gosto da conquista se tornou uma meta. O paradoxo está no fato de eu começar a jogar mal ao desejar o resultado, enquanto joguei o melhor xadrez da minha carreira até hoje sem pensar no resultado! Não é algo que simplesmente se escolhe, é algo que vem de dentro, e esse é o clímax da reflexão.

Pensar sobre o "por que lutar" me fez perceber que a vitória no Citadino e no Zonal foram ocasionais, mas minha satisfação comigo mesmo foi genuína. Ao mesmo tempo, ser campeão da etapa de relâmpago do Clube não teve o mesmo gosto, e nada tem a ver com o porte do torneio - tem a ver com a forma como eu consegui. Enquanto o Citadino foi como uma recompensa, o Blitz foi como um bilhete premiado.

Revendo meu perfil do Citadino no site do cxf.com.br (/perfilbrandao.html) as coisas ficaram muito mais claras. O xadrez é para mim a ferramenta para encontrar o caminho da perfeição. Não falo da perfeição ocidental compreendida superficialmente, que seria não cometer erros. Falo do caminho da perfeição, da total entrega à tarefa. O caminho da perfeição é trilhado no estudo, no treinamento, na postura e na ação; reside no espírito obstinado, abnegado, que enfrenta os obstáculos dando o melhor de si, independente do resultado - talvez os obstáculos não sejam superados, talvez sejam, mas não tem relevância. O caminho não depende de pontos.

O desejo é inerente a natureza humana, mas a tarefa envolve não deixar que o desejo subverta o objetivo maior: se superar, ser o melhor em si, alcançar o topo de si mesmo. Esse é o horizonte do caminho da perfeição, com ele em mente não é preciso mais nada para se orientar.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Conversa de bar

Ao final da semifinal saímos para jantar, eu, Silvio Cunha, Frederico e Everaldo Matsuura, Jorge Bittencourt e Sílvio Camargo.

Ao longo das conversas descobri uma infinidade de coisas. Em primeiro lugar, moqueca é bom demais. Em segundo, o Bittencourt e o Sílvio Camargo são figuraças, muito engraçados. Por fim, o Everaldo Matsuura é um sujeito fora de série. Com todos, mas com ele principalmente, absorvi uma tonelada de aprendizado, desde nuances em finais de torres até livros probidos. Vou anotar aqui algumas coisas, tanto para lembrar depois como para dividir com quem quiser aproveitar o que eu ganhei de graça:

1. A motivação é a maior força do enxadrista.
É preciso descobrir o que produz aquilo que realmente nos dá vontade de jogar xadrez. Um detalhe é que, pela nossa cultura "utilitarista" costumamos adotar o resultado como o mais importante, fazendo dele o principal fator motivador - o que nem sempre condiz com nossa verdadeira vontade. "Então pode ser que, muitas vezes, pensemos que estamos motivados quando na verdade é só superficial?", eu pergunto, "exatamente, mas no interior não se está motivado". Segundo ele, para saber o que realmente produz essa motivação é preciso --

2. Conhecer a si próprio.
Auto-conhecimento é essencial para descobrir o que nos deixa motivados, do que realmente gostamos e para responder ao existencial "por quê lutamos", e daí acaba-se compondo um estilo próprio, concepções técnicas próprias, e daí surgem princípios e convicções.

3. Conceitos e Pré-conceitos
Quando um enxadrista estuda temas estratégicos específicos, conceituais, ele está absorvendo a opinião de outro enxadrista. Justamente por isso é preciso tomar cuidado, pois a opinião do autor não é uma verdade absoluta e o descuido aqui costuma gerar pré-conceitos difíceis de eliminar mais tarde. Muitas vezes, por motivos didáticos, os autores demonstram exemplos explanados de forma estática, quando a luta enxadrística exige uma noção dinâmica oculta nesses exemplos e muito mais significativa no desfecho da partida, por sinal. O bom estudante consegue observar o que o autor tenta demonstrar mas cria sobre isso uma concepção própria, evitando aceitar numa boa tudo que está escrito e o risco de acabar bitolado.

4. Livros proibidos
Meu sistema e Estratégia Moderna do Xadrez, por exemplo, são livros que só devem ser encarados por jogadores maduros. Segundo ele, esses são livros doutrinadores que, na sua intenção didática, acabam limitando a compreensão do estudante aos temas e métodos apresentados. É importante observar que o nome do livro é "Meu sistema" e não "O sistema"; para Nimzowitsch, a realidade do xadrez era uma, mas pode ser diferente para qualquer um.

5. Talento X estudo
Geralmente o jogador menos talentoso acaba sendo mais estudioso, pois precisa compensar por conceitos racionais o que o talentoso tem por intuição (segundo Bittencourt, espirituosamente, aquele que consegue ter talento e conceito é campeão mundial). O estudante não irá neutralizar seu talento por assimilar conceitos, mas irá sufocar tudo o que há de bom em si se criar pré-conceitos.

6. Estilo x verdade da posição
Há jogadores que tem, em seu estilo, o hábito de buscar a verdade da posição. Giovanni Vescovi é um deles. Fier é o oposto. Milos é um intermediário. A questão é que é preciso saber do seu próprio estilo, o que traz mais sucesso em determinadas situações, para saber quando é melhor ser prático e quando é melhor ser técnico.

7. O estudo dos compeões mundiais
Estudar o estilo (e as partidas, evidentemente) dos campeões mundiais é um bom caminho para entender o que eles fizeram para chegar mais longe que os outros de seu tempo e incrementar o próprio estilo.

8. Evolução e saltos de qualidade
A evolução se dá sim em saltos. De tempos em tempos se nota uma grande diferença na qualidade do próprio jogo, mas geralmente há um espaço intermediário incômodo, pois para aprender algo no mais das vezes é preciso desaprender outra coisa. Essa situação cria a sensação desconfortável de que não se consegue mais crescer ou, pior, de que estamos ficando mais fracos. Isso é absolutamente normal e o período de crise e desconforto quase sempre é superado por uma revisão do que foi aprendido anteriormente e consequente evolução.

O mais interessante de tudo é que isso foi expressado com humildade encantadora, de forma alguma taxativa ou soberba. O Everaldo, assim como o Sílvio Cunha (por sua simplicidade e paciência), mostrou-se alguém para se ter como exemplo.

Eu não vou escrever nenhuma reflexão própria por enquanto, primeiro quero assimilar a experiência do torneio para depois revisar minhas concepções. Sexta-feira já viajo para Curitiba para participar do Brasileiro interclubes e dessa vez a equipe precisa de mim no meu melhor.

Expresso semifinal #5

Enfim, paz...

Mesmo depois de quatro anos de experiência em competições continuo impressionado com o efeito de uma competição de porte no meu estado emocional. Exaltação, depressão, euforia, ansiedade, tudo ao extremo e eu tentando controlar tudo... Essa coisa de administrar o emocional conta muito e deve ser uma prova da importância do esporte na vida das pessoas, especialmente os atletas do xadrez.

O resultado na última rodada poderia representar mais de 40 pontos, e eu saí perdendo. Enfrentei Paulo Fucs, 2199. Melhor na abertura, controlando as coisas no meio-jogo e levando pra um final melhor. Quando vi meu peão passado já não valia nada e o final era perdedor. Mais uma vez não consegui oferecer a melhor das resistências e só quando já não havia como reverter me lembrei de um final mostrado a mim por um aluno (Marcus Vinícius) de bispo, rei e peões contra rei e peões empatado, para o qual provavelmente poderia transpor. Infelizmente não percebi a tempo e perdi.

Com a derrota e um rtg performance de 2079 abro meu rating FIDE com 2042 - modesto até demais, mas faz parte... não posso reclamar, foi o merecido pelo xadrez que eu demonstrei.

É uma pena que eu não tenha conseguido apresentar a mesma convicção e disposição do Citadino ou do Zonal, embora aqui fosse um nível de oposição bastante diferente, mas essa semifinal foi só o começo de uma série de competições nacionais e não será tão difícil morder na próxima.

Preciso agradecer aos amigos que me ajudaram para que eu tivesse condições de estar aqui e desempenhar um bom papel, espero não ter decepcionado nenhum de vocês:
Deise, Amanda, Marcelo Pomar, Daniel Emendorfer, Djalma Aguiar, Gílson Chrestani, Sérgio Müller, Lojas Planetta e Clube de Xadrez de Florianópolis.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Expresso Semifinal #4

Ontem à noite venci o Carlos Wolff em uma partida um tanto feia... eu sacrifiquei um peão baseado na forte posição que conseguiria pro meu cavalo na 6ª fileira, mas ele tinha uma refutação convincente e eu fiquei com peão a menos. Fiquei frio, foi mais fácil manter a auto-confiança contra ele já que o venci com grande facilidade no Zonal. Ele, ao contrário, ficou bastante nervoso e acabou me devolvendo o peão alguns lances depois, sem necessidade. Aí trabalhei a posição e converti o final 2T + D + C x 2T + D + C e vários peões. Na verdade a questão principal na partida pra mim foi: por que exatamente ele está participando dessa semifinal, se ele não ficou sequer entre os 20 primeiros no Zonal SC? Enfim, deixemos pra lá.

Hoje de manhã enfrentei o Moacir Bortoloso, 2194, do ES mesmo. Acordei tarde, tomei o café da manhã enquanto buscava as partidas dele na base. 1.e4, mas não vi o que ele jogava contra francesa. Pelo estilo dele imaginei que ele fosse jogar um Chatard-Alekhine e acertei em cheio. Preparei direitinho, mas quando comecei a jogar ficou nítida a diferença de qualidade... Logo me coloquei numa situação onde tive que achar os únicos e joguei um lance ousado demais, sem perceber um recurso tático simples (b4!!) em uma posição rica em tática. Caí em um final muito inferior e com tempo exíguo ofereci pouca resistência.

Me incomoda o fato de não estar conseguindo jogar tão bem quanto acho que deveria, esses não foram dias felizes. De acordo com os cálculos, voltarei pra casa com um rtg FIDE entre 2030 e 2090.