Entre mortos e feridos, em meio à poeira da destruição, cá estou eu enchendo o blog de linhas mais uma vez.
No período compreendido entre os dias 13 e 20 de novembro estive em Chapecó (dois anos depois da minha primeira competição por equipes, lá mesmo) para compor a equipe de Florianópolis nos JASC 2009. Saímos daqui na quinta-feira à noite, 12 de novembro (eu, Uczai, Pomar, Eliseu, Karol, Bea, Dani, Thauane e uma vara da turma do salto com vara). Firmemente resistimos às 10h de viagem de ônibus e aos siberianos -10ºC impostos pelo severo motorista. Desembarcamos no alojamento instalado no colégio Zélia Scharff - um nome que em nada inspira os episódios sinsitros (!) que nos aguardavam...
Embora tenhamos ficado à toa nessa sexta-feira 13, Pomar quase se machuca feio ao iniciar uma pacífica manifestação dentro do quarto - felizmente, nada que uma terapia com gelo não resolvesse. Mas até aí tudo normal... ninguém suspeitaria do que estava por vir.
À noite deste primeiro dia, acordei por volta das 04:00 da manhã por conta de um pesadelo terrível, sem precedentes. Não consegui dormir por uns vinte minutos, sem conseguir tirar as imagens da cabeça e sob sapinhos de papel que ficavam voando de um lado pro outro no teto do quarto, movidos pelo ventilador que mais parecia uma turbina de Boeing - a julgar pelo barulho produzido.
No dia seguinte nos deslocamos para o salão de jogos para enfrentar a equipe de Lacerdópolis. De acordo com a escalação jogaríamos com a seguinte formação: Pomar, Uczai, Brandão e Eliseu. Nossa estratégia prévia era vencer pela máxima margem as equipes menores e tirar qualquer coisa das grandes. Por isso, a julgar pela força relativa das equipes, deveríamos vencer por 4 x 0. Não tive muitas dificuldades no meu tabuleiro, embora meu adversário tenha empregado um gambito que nunca estudei e eu tenha sido forçado a pensar já no lance 3. Felizmente achei um plano bom envolvendo uma rápida reação central e desenvolvimento das peças leves e, como meu adversário não jogou os melhores, já no lance 10 não se pode falar em compensação. Depois de um sacrifício de qualidade sem muita justificativa troquei as damas e depois de eliminar o poderoso cavalo em d5 a posição branca desmorona rapidamente.
Aí deu-se o primeiro tropeço: O Eliseu, com uma qualidade a mais, tentou forçar a barra em uma posição empatada, errou e acabou perdendo. Tudo bem, compreensível, todos assimilamos o resultado facilmente - menos o Eliseu. Depois dessa partida o emocional dele falhou e ele acabou optando por voltar pra casa no dia seguinte. Antes disso, porém, durante a noite, algo que nos tirou o sono - literalmente! - ocorreu.
Um dos nossos companheiros de quarto (que não convém expor) tirou todos da cama, por volta das 04:00h, com um singelo sonilóquio (fala durante o sono):
- SOCOOOORRO!!!
Sim, amigos. No tom de voz mais alto que vocês possam imaginar, só que mais alto. Aí seguiu-se um...
- SOCORRO!!
E então todos, de sobressalto, corremos para saber o que estava acontecendo. Nosso companheiro, por motivos que ele próprio desconhece, gritou duas vezes por socorro enquanto dormia. Ainda nessa noite, por coincidência (?), outros pequenos incidentes ocorreram, incluindo a falta de energia elétrica. Mas nada que nos tirasse a paz - ou quase.
No dia seguinte viemos a descobrir as lendas que envolviam a escola - nada agradáveis, por sinal -, mas superamos com relativa facilidade. Nesse mesmo dia enfrentaríamos a equipe de Concórdia (com Molina, Fier, El Debs e Alessandro "Paulista"). Estávamos escalados: Pomar, Uczai, Brandão e Jaílson - que chegou de viagem no dia anterior. Por conta de uma falha técnica, nosso match veio abaixo quando tivemos que passar para o tabuleiro seguinte e perder toda a preparação contra os nossos respectivos adversários. Enfrentei o Alessandro no 4º tabuleiro com uma francesa; ele mandou um ataque índio rei com 2.De2 e até consegui luta depois de 13...g5, apesar da posição estranha. Foi quando a relação lances pro controle/tempo disponível apertou que eu comecei a me precipitar e mandar minha posição pro buraco. O Alessandro jogou firme e logo arrematou.
Tomamos um belo 0 x 4 e parecia que esse seria um JASC que não, não deu. Mais uma vez nos mantivemos unidos e superamos o ocorrido. Difícil foi superar a madrugada desse mesmo dia, pois perto das 04:00h, adivinhem...?
- SOCORRO!
Dessa vez mais comedido, suficiente apenas para acordar o pessoal do quarto, não do alojamento inteiro. Mais uma vez nosso espírito de equipe nos manteve serenos e seguimos bravamente para nosso próximo confronto. O César, que deveria chegar nesse dia para substituir o Pomar, perdeu o ônibus só conseguiu chegar para a 4ª rodada. Aí fomos nós enfrentar, respeitosamente, a equipe de Caçador na mesa 8. Quem não respeitou muito o match foi meu adversário, que jogou ao toque até o lance 21!! É claro que quando se joga rápido demais em posições que requerem cuidado, planejamento ou defesa tenaz a coisa não vai muito bem...
Apesar do 4 x 0 eu saí meio abalado da partida, com pouca confiança em mim e no meu jogo, por isso pedi um dia de descanso. O confronto seguinte foi contra Itajaí e o Pomar, que já não estava com muita pilha, assumiu meu posto e jogou contra o Dauer no segundo tabuleiro. O placar ficou 2 x 2 depois que o Uczai fez o serviço e o César (enfim em Chapecó) ganhou magicamente do Kaiser em um final de torres inganhável - do lado inferior!!. Eu, que tomei o tempo que precisava pra colocar os pensamentos em ordem e recobrar a auto-estima, voltei à ativa, enquanto o Uczai teve que voltar pra Floripa por causa de provas na faculdade. Sem Eliseu e sem Uczai, teríamos que jogar as 3 rodadas seguintes sem reservas.
Sem mais surpresas noturnas no alojamento, seguimos para enfrentar Tubarão, composta por Godóis, Emendorfer, Djalma Aguiar e Braitt. O César acabou tomando um ataque forte e o Pomar, depois de socorrer a Bea que passou mal durante a partida, perdeu um final de peões para o Daniel. Aí sobramos eu, já em um final superior, e o Jaílson (vulgo "Jajá Maravilha" ou "Jajá Exclama Cinco"), que acertou em cheio a preparação proposta pelo Uczai contra a Pirc do Braitt. Nós dois vencemos e seguramos o 2 x 2. Sobre a minha partida com o Djalma, não saí muito bem da abertura e deixei margem para que o branco obtivesse uma grande vantagem, mas o Djalma não jogou os precisos e, pior, acabou tomando um golpe que me deixou com 2 cavalos por uma torre. Aí a conversão teve que ser paciente, mas aos poucos fui montando uma posição dominante. Como eu perdi a cópia da planilha (¬¬), só poderei mostrar até a parte que recordo:
Neste mesmo dia as meninas voltaram pra Florianópolis. A equipe não foi muito bem no geral, mas as meninas mostraram que sabem brigar também. A Thauane conseguiu uma medalha de ouro por rendimento individual.
Então subimos à mesa 2, para enfrentar a equipe de Joinville. Antes do torneio imaginávamos que as equipes principais teriam alguns pontos fracos, possíveis buracos em que se poderia fazer um ponto - menos Joinville. Essa era um paredão composto por Rodrigo Disconzi, Renan Levy, Haroldo Cunha e Sílvio Cunha (rating médio aproximado: 2300). Foi nessa rodada que o mote da nossa equipe se fez valer e lutamos muito, no melhor estilo Eye of the Tiger (^^), sob pressão em todos os tabuleiros.

Antes de contar sobre os outros tabuleiros, um resumo das 3:30h de batalha com o Haroldo.
- Ele jogou uma holandesa inusual para os meus parâmetros e me tirou do livro, depois de 5...a5 inventei um 6.Bc3 que é até bem-intencionado (baseado no controle da casa e5), mas não é lá muito bom. O simples 6.Cc3 era suficiente.
- A partida seguiu como se deveria esperar até 10...De7. Aí eu percebi que a minha posição não ajudava muito na hora de escolher um plano... Eu não me sentia inferior, mas sem direção. Apesar de conseguir analisar a posição e identificar os pontos importantes (casa e5, casas pretas em geral, bispo ruim em c8, possibilidade de estourar com f2-f3 e e3-e4) não conseguia bolar um plano de ação que juntasse tudo isso e melhorasse a posição significativamente.
- Aí, já bem atrás no relógio, decidi que precisava fazer algo e mandei a3, forçando a troca dos bispos de casas pretas já que não consigo enviar os cavalos à casa e5 por meio de Cf3-e1-d3 e Cd2-f3 - o peão c4 pendura no final das linhas. Ainda não tinha certeza sobre a fraqueza real dos peões quebrados, mas não via nada de muito ruim pra mim. Depois de 13...Bd7 finalmente a manobra Cf3-e1-d3 foi possível, já que c4 não cai mais (melhor seria 13...Ba6, como eu esperava).
- Aí seguiu a rotina e depois de 19...Rh8 fica claro que eu ainda não tenho um plano direto ao jogar 20.Te1 (com idéia de eventualmente mandar f2-f3). Só que depois de 20...Bg6 percebi que f2-f3 é uma furada, e eu preciso fazer alguma coisa pra ter vida na posição. O problema é que eu continuava naquelas de não conseguir bolar um plano que abrangesse tudo, que fosse lógico e coerente com a posição. Com uns 30 minutos para chegar ao lance 40, decidi que não dava mais para esperar e mandei uma sequência que parecia promissora, torcendo pra não ficar com uma posição ruim a longo prazo. Minha intuição acertou e o Fritz dá o aval: a pressão sobre d5 já poderia ter sido iniciada antes. Cabe uma explicação sobre 24...Tc8: o Haroldo chegou a levar a torre até b8 para defender o peão e só então percebeu que o cavalo entra em d7 faturando uma qualidade. Tendo que mover com a torre, largou ela em c8 mesmo - melhor seria tomar em c5, mas após 25.Dc5 o flanco dama do preto está caindo aos pedaços e eu não vejo nada muito rápido contra meu rei. Entrei nos 5 minutos restantes ainda no 29.Tb1, o que quer dizer que me restariam 30 segundos por lance até o lance 40...
Faltando 1 minuto para o fim do mundo (e o Haroldo pressionando minha seta), eliminei o bispo de g6 que perfurava minhas torres e sacrifiquei a dama logo em seguida, sem poder gastar preciosos segundos buscando refutações. Felizmente não havia nenhuma e achei o arremate com a seta ainda em pé - sem saber que o apuro havia passado dois lances antes! Pra variar, o lance o controle 40.a5 está errado e há algumas contra-chances: depois de 41.Bd5 Tb8! salva o dia, mantendo possibilidades de xeque perpétuo, mas 41...Tf7 leva uma bonita sequência de mate em 3 começando por 42.Tg8 (que na minha cabeça era 40.Tg8... e não 42). Correto é 40.Tf1!!
No tabuleiro 2, Pomar ficou apertado mas segurou a barra e depois de alguns lances imprecisos do Renan conseguiu levar pra um final igualado, arrancando um empate. O César encaixou a preparação feita para o Kaiser na 5ª rodada e fez o Disconzi pensar por uns 50 minutos para resolver os problemas da abertura. De fato, o Disconzi ficou melhor e acertou um golpe mas o César se manteve na partida. Se manteve tão vivo que quando estava prestes a ser nocauteado pelo Disconzi, este, com a seta ruim, permitiu a troca de damas depois de sacrificar uma peça e uma qualidade - mais uma demonstração da estilo Ninjitsu do Umetsubo...
Tudo isso ocorreu antes do primeiro controle. Aí faltava o Jaílson, que tentava segurar o Sílvio com todos os recursos possíveis uma vez que caiu num truque no lance 6 e perdeu um peão. Resistiu, resistiu, resistiu, lutou por 6 horas e, buscando suas chances, levou pra um final de R+B x R+T e peão torre - ele com 5 minutos e o Sílvio com 2. Depois dessa maratona o Sílvio acabou sendo vencido pelo cansaço e pendurou a torre, empatando, para o delírio da torcida de Florianópolis que aguardava, faminta, o desenlace.
Com esse 3x1 tiramos Joinville da disputa pelo ouro e no da seguinte Rio do Sul, já praticamente campeã, propôs a paz e um dia feliz. Minhas projeções estavam certas e não houve nenhuma goleada nas mesas próximas, o que nos deixou em um confortável 4º lugar. Eu terminei com 4,5/6, satisfeito com a pontuação, com a performance, com o aprendizado e com a idéia de sair daquele colégio tenebroso.